Geisa foi meu primeiro amor. Ela era uma mulher muito mais velha que eu. Eu tinha onze anos. Sim, onze aninhos. E ela já tinha doze. Há uma enorme diferença entre um menino de onze para uma moça de doze, pois as moças de doze só querem saber dos rapazes de quatorze, quinze. Nós dois morávamos no mesmo prédio. Ela era do 802 e eu do 604. Minha varanda dava pra varanda dela. Sempre que ela passava, eu ficava sorrindo como bobo... Mas é claro que nunca indo falar com ela, não tinha ainda tamanha coragem.
Um dia, eu estava na porta ria do prédio, ali na Rua Nossa Senhora de Copacabana mesmo, 1200. Estava esperando a mulher com quem eu queria me casar, a mãe dos meus filhos. Eu esperava ela chegar em algo que chamávamos de "o galinheiro", um ônibus escolar que levava as crianças em casa. Foi então que o porteiro olhou para mim, zangado, e gritou "ei, moleque, deixa a menina morrer em paz!".
Fiquei um tempo parado sem entender direito. A Geisa tinha só 12 anos. Ninguém dessa idade morria. Então eu perguntei pro porteiro, com um pouco de medo, mas perguntei. "o que você disse?". "Deixa a menina morrer em paz! Sai daqui garoto!"
Comecei a correr as escadas do prédio até encontrar Jeremias. Ele era meu rival, também apaixonado por Geisa. Perguntei se ele já sabia daquilo, e ele estava mais adiantado nas informações do que eu.
Confirmou que já tinha escutado algo parecido vindo dos adultos.
Eu e meu rival, lado a lado, esperávamos Geisa chegar da escola. Agora com maior ansiedade que nunca. Esperávamos escondidos atrás de uma pilastra do prédio. Quando vimos minha amada e sua mãe passarem logo corremos para entrarmos no mesmo elevador que elas.
Olhei para meu amor secreto e perguntei "Geisa, posso conversar com você um pouco?". Lembro que ela olhou para mim um tanto quanto assustada, já que nunca nos falamos antes de fato. Ela olhou para mãe e perguntou se podia. A mãe disse que podia se ficássemos no corredor um pouquinho. Sentamo-nos nas escadas do andar, com a porta do apartamento dela aberta para a mãe ficar de olho. Sentava ela no mesmo degrau que eu, na minha frente. No degrau de cima, no meio de nós dois estava Jeremias, do 703.
"O porteiro disse que você estava morrendo". Ao ouvir minhas palavras ela abriu um sorriso no rosto. Um sorriso! E então ela disse "É verdade. Eu tenho uma doença incurável e meus pais já estão gastando muito dinheiro com isso, dinheiro até que não tem. Meu pai até hipotecou algumas coisas nossas. Prefiro morrer logo pra não prejudicar mais eles."
Ela disse isso sorrindo. Um sorriso lindo. Fiquei sem entender muito bem... Era meio confuso. Minha amada tinha só 12 anos!
Depois desse dia, sempre que eu encontrava com aqueles cabelos loiros até a cintura eles me dava um sorriso idêntico aos da escada.
Eu lembro que teve um dia que eu encontrei com ela e ela estava com um lenço na cabeça.
Noutro dia não a vi mais.
Me falaram então que uma ambulância veio buscá-la, e ela foi sorrindo.
Ela tinha tudo para viver uma vida miserável, chorando e contando por seus últimos dias. No entanto ela viveu sorrindo, amando a vida e sendo grata pelo que ela tinha.
Um pouco depois dela ter ido, encontrei com um menino lá do prédio chorando. Ele corava por que estava de castigo. Tentou fugir de casa porque estava aborrecido com o pai porque não lhe deu a bicicleta nova que ele queria de aniversário.
E ela sorria, a minha amada. Sorria de mãos dadas com a Morte.
Foi aí que comecei a avaliar algumas coisas da vida... e como as pessoas são tão diferentes.
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Texto verídico. História vivida pelo meu pai, meu grande mestre na vida. Até hoje, quando meu pai fecha os olhos, ele diz que consegue se lembrar dela, do seu cabelo loiro e de seu vestido bonito. E também de seu sorriso.
Foi o primeiro contato com treinamento de pessoas; ela começou um treinamento que meu pai vem aprofundando a cada dia que passa.
Espero ter tocado um pouco vocês. Abraços de Luz!
Yohana Kaanda
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
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