quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Veja com olhos de ver.

Com as lágrimas salgadas chegando perto de seus lábios e seu peito sentindo um aperto que já fora esquecido. Foi assim o início de uma profunda introspectividade. Buscava em cada detalhe de sua vida um significado, e a enlouquecia o terrível fato de muitas vezes não o encontrar.

Gostava de torturar-se, só podia ser isso... Já que todo dia, a partir daquele em especial, ela fazia seu Ritual. Acendia um incenso. Play em uma música, de preferência clássica. Apagava todas as luzes da casa (embora tivesse um medo absurdo do escuro, desde criança). E deitava em sua cama de casal, naturalmente sozinha. Acompanhada apenas de sua fiel amiga, a gatinha branca e de nome ‘Fada’. Ficavam as duas fêmeas abraçadas, brincando de carinho. Dormiam provavelmente, para que então as horas passassem mais rápido.

Helena às vezes queria se sentir triste. Queria chorar mesmo, sem ser atrapalhada por ninguém. No entanto, outras horas ela buscava fugir sua mente do problema, como se isso fosse ajudá-la imensamente naqueles breves segundos. Helena adquirira o hábito de ver muitos filmes, pois assim focava na história deles, e não mais na sua. Qualquer choro era simplesmente o impressionamento com a arte.

Vivia seus dias um a um, como no sistema de viciados que querem se largar. Ela não tinha perspectiva para seu futuro. Não queria ter. Queria ficar largada, sozinha, abandonada. Ela queria a atenção por meio da pena.

Tudo estava condenado e sua cabeça já estava na forca. Decidiu que ia desistir de viver. Deu ‘Fada’ a uma criancinha qualquer e foi andando. Foi andando sem rumo.

Ela sabia que queria que fosse indolor, mas como poderia ser? Poderia se drogar talvez, ou tentar alguma coisa que a fizesse dormir. Algo quieto, sem bagunça. Sem dor.

“Ei, moça! Minha mãe não deixou eu ficar com a gata. Toma de volta.” Ela um menino de uns 9, 10 anos. O menino segurava A Fada. Foi nesse momento que algo epifânico aconteceu na mente de Helena. Aquele menino estava oferecendo à ela a perpetuação da vida. O menino segurava a vida em suas mãos. A vida de Helena, bem diante de seus próprios olhos. Fada nunca lhe pareceu mais bela. Abraçou aquela bola de pelo e aquele menino como se fossem o tesouro mais importante que jamais pudesse existir.

Voltou correndo para casa e chorou mundos e mundos de alegria.